A doutrina social da igreja e o futuro do presente. Um olhar a partir de Cabo Verde

A doutrina social da igreja tem um valor supremo no modelo de sociedade que defendemos.

O Estado é laico mas a nação não se confunde o Estado. A nação não é laica. As igrejas e a sua doutrina fazem parte do nosso quotidiano e do nosso ADN enquanto nação.

São valores e instituições que merecem o nosso carinho e a nossa admiração.

Recorrendo ao pensamento de John Maynard Keynes, podemos afirmar que o problema político da humanidade e do desenvolvimento consiste na combinação de três elementos-chave:

LIBERDADE INDIVIDUAL, JUSTIÇA SOCIAL E EFICIÊNCIA ECONÓMICA.

No centro desses três pilares está o homem e a família, a pedra angular de qualquer modelo de sociedade promotor da dignidade da pessoa humana.

A dignidade que se concretiza através do homem livre, plenamente livre, autónomo e independente.

Onde estiverem o homem e a família está a igreja. Onde estiver a pessoa humana, estão as igrejas.

É sobre esta realidade – o homem – que os partidos políticos, enquanto organizações da sociedade civil, e as igrejas actuam para ajudar a garantir a felicidade da pessoa humana.

Os partidos políticos têm de ter também esta visão ecuménica do homem e do mundo.

Quero reafirmar aqui a importância decisiva da consciência social como pressuposto norteador essencial do modelo moderno de sociedade.

Porque nenhum modelo de desenvolvimento terá êxito se não for capaz de combater as desigualdades de oportunidades e as desigualdades sociais, se não tiver como objectivo a erradicação da pobreza e da exclusão social.

Uma sociedade que cuide só de alguns criará excluídos e assim deixará de ser livre e aberta.

Só é competitiva uma economia coesa. Só é coesa uma economia em que todos sejam cidadãos dignos, livres e autónomos.

Um Estado para ser útil terá de o ser para com os mais necessitados.

Se uma sociedade livre não pode ajudar os muitos que são pobres, não pode apoiar os poucos que são ricos, dizia John F. Kennedy.

A pobreza não pode ser vista como um problema dos pobres. É um problema de todos nós. Por razões de humanidade e justiça.

Somos defensores de uma economia social de mercado.

Garantindo os princípios da dignidade da pessoa humana e do direito do indivíduo como pessoa humana, da subsidiariedade e da solidariedade.

São princípios basilares da doutrina social da igreja que nós defendemos.

Nós, tal como as igrejas, somos defensores e promotores da liberdade plena, da dignidade da pessoa humana e dos seus direitos, da economia social de mercado, do capital social e da paz no país e no mundo.

As nossas preocupações sociais obrigam-nos a tornar fecunda a actual trilogia liberdade plena, igualdade de oportunidades e solidariedade, em ligação estreita com a busca de uma “sociedade contratual” e de um Estado parceiro e federador aptos a compreender a complexidade e a diversidade do mundo hodierno.

São esses valores que tornam este país útil ao mundo.

Se nós, enquanto partido político, e as igrejas temos o mesmo objecto que é a realização plena do ser humano em todas as suas dimensões, não temos outra alternativa racional.

Temos de ser parceiros, cultivando os valores da complementaridade e da subsidiariedade.

Esta tem de ser a nossa atitude.

Cada um preservando a sua autonomia.

Apenas instituições autónomas podem ser parceiras e de pleno direito.

Defendemos um Estado parceiro e federador. Esse Estado tem de ser absolutamente transparente.

Um Estado que vê nas igrejas um parceiro decisivo na promoção da família, uma instituição com direitos e deveres plasmados na Constituição da República, enquanto elemento fundamental e a base de toda a sociedade.

Também na construção de um homem cabo-verdiano no mundo e do mundo que, para além de dominar as ciências e as tecnologias, seja um cultor activo de valores mais profundos da caboverdianidade tais como o mérito, a solidariedade, o bem comum, o amor ao próximo e ao país, o esforço, a superação, a ascensão social e a promoção da família.

Mas, sobretudo, na edificação e na condução de um homem verdadeiramente livre, autónomo, independente que não consegue explorar a dignidade do seu próximo nem deixa ser explorado e condicionado pelos poderes públicos ou partidários.

Queremos ver as igrejas mais activas no sistema educativo e na profusão de valores nas escolas, enquanto núcleo importante para a condução e orientação dos nossos jovens e das nossas crianças.

Só a liberdade plena, a autonomia e a independência da pessoa humana podem garantir a genuína realização do ser humano.

Estes valores traduzidos no capital social e no activo imprescindível da nação são essenciais para a projecção de um Cabo Verde moderno, competitivo, exportador, solidário e inclusivo.

Não existe dignidade da pessoa humana quando muitos dos nossos concidadãos vivem nas malhas da pobreza.

Mais de 130.000 cabo-verdianos vivem hoje com menos de 150$, cerca de 2 USD por dia, ou seja, na pobreza extrema.

Nós pretendemos eliminar este fardo social que representa a pobreza extrema e reduzir a pobreza para um dígito, numa década.

Queremos ter o privilégio de convidar as igrejas para assumirmos, conjuntamente, este compromisso.

Actuando sobre a economia gerando empregos e mais rendimentos, mas também intervindo em relação a todos aqueles que, por uma razão ou outra, demandam por uma intervenção do Estado.

Esta intervenção tem de ser feita fora dos holofotes da comunicação social, respeitando a dignidades dos necessitados e através de um regime de contratualização com as igrejas e demais organizações da sociedade civil, optimizando as capacidades e redes já existentes e evitando qualquer tipo de duplicação de esforços e de capacidades instaladas.

O nosso alvo tem de ser as famílias e a escola.

O tema “família” há muito tem sido aprofundado pela Igreja.

Recordemos com carinho as palavras proféticas do Papa João Paulo II: “o futuro da humanidade passa pela família”.

Estamos num momento histórico para o destino da humanidade e a grande questão tem sido a família.

A família, nos tempos de hoje, tanto e talvez mais que outras instituições, tem sido posta em questão pelas amplas, profundas e rápidas transformações da sociedade e da cultura.

Muitas famílias vivem essa situação na fidelidade àqueles valores que constituem o fundamento do instituto familiar.

Outras estão impedidas por variadas situações de injustiça de realizarem os seus direitos fundamentais.

Outras, por fim, tornaram-se incertas e perdidas frente a seus deveres ou, ainda mais, duvidosas e quase esquecidas do significado último e da verdade da vida conjugal e familiar.

Não é por acaso que muitas famílias em Cabo Verde são monoparentais e lideradas por mulheres. Grande parte da pobreza no nosso país está neste núcleo de família.

É muito significativo que, logo depois da eleição para a Sé de Pedro, o Papa Francisco, ao ser perguntado sobre o tema para o Sínodo dos Bispos, tenha escolhido justamente o tema “família”.

Pensemos, como fez o papa, nos idosos abandonados até pelos seus entes queridos e pelos próprios filhos; nos viúvos e nas viúvas; em tantos homens e mulheres deixados pela sua esposa ou pelo seu marido; em muitas pessoas que se sentem realmente sozinhas, não compreendidas nem escutadas; nos migrantes e prófugos que escapam de guerras e perseguições, e em tantos jovens vítimas da cultura do consumismo, da delinquência, do “usa e joga fora”, e da cultura do descarte.

Hoje vive-se o paradoxo de tantos prazeres, mas pouco amor; tanta liberdade, mas pouca autonomia.

Neste contexto social, familiar e matrimonial bastante difícil, a Igreja é chamada a viver a sua missão para ir ao encontro de tantos ferimentos por que a família passa, e que supõe uma presença da Igreja para acompanhar.

Tenho fé inabalável. Venceremos esta batalha.

A nossa Constituição obriga a que a família seja protegida pela sociedade e pelo Estado e a que o Estado e as instituições criem as condições que assegurem a unidade e a estabilidade da família.

Sobretudo neste quesito, as igrejas são parceiras imprescindíveis.

Queremos ter o privilégio de estabelecer um compromisso firme e uma parceria efectiva com as igrejas para a promoção da família e dos valores da família.

Na família reside o futuro de Cabo Verde e da África.

Temos todos de assumir esta tamanha responsabilidade.

A sociedade, as igrejas e o sistema político.

É nossa obrigação garantir um futuro melhor para esta nação e contribuir para a felicidade de cada um dos nossos concidadãos.

Para que os cabo-verdianos possam triunfar na vida e Cabo Verde possa triunfar no mundo.

A doutrina social da igreja e o futuro do presente. Um olhar a partir de Cabo Verde

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