O livro de M. Lewis (editor do Washington Post): Boomerang, Travels in the New Third World, descreve uma sociedade onde o salário público é 3 vezes o privado, o seu valor total duplicou em termos reais em 12 anos, não é claro quantos são os funcionários (as estimativas variam entre 700 e 800 mil), mas sendo certo que somando aos temporários chegam a 20% da força de trabalho do país. Para além de outros pormenores como ganharem mais que na Alemanha e as suas filhas solteiras beneficiarem de uma pensão vitalícia de mil euros.

No Parlamento havia funcionários a receber 18 salários/ano, um spa no subsolo e oferta todos os anos aos jornalistas de um pc novo (o velho era para vender).

No sector privado 600 profissões por serem de “desgaste intenso” podiam reformar-se aos 50 anos (mulheres) e 55 (homens), desde cabeleireiros até trompetistas, passando por flautistas, massagistas e apresentadores de televisão, reforçando a conclusão de que a responsabilidade é tão prevalecente na

Grécia como o sol na Finlândia.

Depois, é claro, o governo de Papandréu reconheceu que a Grécia adulterou as contas da dívida, deficit e inflação para poder entrar no Euro, através de exemplos de contabilidade criativa como retirar os tomates e outros bens alimentares em alta do cabaz de preços no dia em que a inflação era medida e “esquecendo-se” das pensões e gastos com a defesa (os mais altos europeus com 7%) das contas públicas. Dificilmente um paradigma de confiança.

Em terceiro lugar, não é que na Grécia não haja regras e leis; é que cada um tem as suas: os taxistas param quando querem no caminho para levar mais passageiros; circulam habitualmente por sentidos proibidos; quando recolhem dois amigos no aeroporto e deixam um num hotel e outro noutro (a poucos metros de distância) cobram a ambos duas corridas do aeroporto. A ordem dos médicos organiza reuniões europeias e esquece-se de aparecer (durante três dias). E assim sucessivamente, inclusive nos impostos: 2/3 dos médicos privados não pagavam impostos, 1/4 dos empregados tão pouco e no ministério das finanças 70 funcionários conseguiram a proeza de criar um património imobiliário de 1,2 milhões a partir de um salário de 50 mil euros/ano.

Se como já foi dito a responsabilidade é o preço da liberdade, a confiança o cimento das relações sociais e as regras o garante da liberdade, não é difícil de concluir que a Grécia não é verdadeiramente um país livre, nem politicamente, nem economicamente. Mas tão somente caótico.

Conclusão? Três perguntas.

Primeira: quando há quem diga que a culpa não é do povo grego, de quem é? Dos marcianos? De onde vieram os políticos? Quem os elegeu? Quem elegeu o Syriza? Quem votou não no referendo?

Segunda: é possível construir um país ou sequer uma união económica e monetária, baseado unicamente na geografia? Nos seus acasos territoriais e acidentes geográficos?

Terceira: se a Europa ceder à Grécia, perdoando a dívida, etc. e dado que todos os países têm eleições, o que acontece ao Euro? E aos valores da responsabilidade, confiança e lei? Isto é, aos valores europeus?

Ah, bem sei, há também a solidariedade. Mas para a solidariedade não ser preguiça (pecado mortal) ela justifica-se com os idosos, doentes e vítimas de cataclismos naturais. O que tanto quanto consta não é o caso dos 10 milhões de gregos.
Daí a pergunta inicial: a Grécia é um país europeu?

Jorge A. Vasconcellos e Sá
Mestre Drucker School
PhD Columbia University
Professor Catedrático
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A Grécia é um país europeu?

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