A hora da bolsa de mercadorias

Economias como a Inglesa no seculo XVIII e a Japonesa no seculo XIX que tiveram a agricultura na base do seu desenvolvimento, foram posteriormente bem-sucedidas na área da indústria e hoje ocupam posições de destaque, quando o assunto é desenvolvimento económico. Mais recentemente o rápido crescimento da actividade agrícola em Países como a China, Índia e Vietnam também têm provado o princípio de que a agricultura é a base do desenvolvimento económico de qualquer País, pois, somente após a existência de uma produção capaz de suportar as necessidades internas de consumo, a industrialização torna-se prioridade.

A agricultura pela sua importância e infl uência nas sociedades, não deve ser analisada de forma isolada, mas sim como um fenómeno relacionado a três factores fundamentais, nomeadamente: a alimentação, a economia e o desenvolvimento sustentável. A agricultura industrial é uma actividade lucrativa que pode ajudar no desenvolvimento dos países e, consequentemente, na redução da pobreza através da criação de emprego para a população de zonas rurais.

Um estudo recentemente publicado pelo Banco Mundial indica que o continente Africano tem potencial para a criação de mercados alimentares no valor de mil biliões de dólares até 2030, aumentando assim o emprego e a prosperidade no continente.

Olhando para Angola, os planos de investimento que se têm verifi cado no sector da agricultura, permitirão reduzir a dependência à importação, ao elevar os níveis de produção, para um patamar que suporte não só o consumo interno mas também crie condições para a exportação. À semelhança do que se viu em 1973, Angola poderá voltar a satisfazer a maior parte das necessidades alimentares do mercado nacional e exportar o excedente, criando assim uma fonte adicional de arrecadação de receitas em moeda estrangeira e, consequentemente contribuir para a criação dos mercados alimentares Africanos. Segundo dados da organização das Nações Unidas, Angola é apontada como o 16º país do mundo, em termos de potencial agrícola, fruto de um vasto território que possui grandes extensões de solo arável e também da rica bacia hidrográfi ca do país.

Porém, actualmente, apenas 3% da terra arável encontra-se cultivada, cenário que deve ser alterado urgentemente caso se pretenda caminhar para uma economia diversifi cada, que não se centre num único recurso, no caso, o petróleo.

Deve-se notar que não se pode falar em diversifi cação e estratégia de substituição sem um investimento coerente com as necessidades agrícolas do país. Investimento este, que não se deve basear simplesmente em insumos e financiamento ao produtor, mas que passe também pela criação de infra-estruturas para o apoio ao produtor, para o aprimoramento das suas técnicas de produção. É necessário inovar, é necessário que os produtores estejam a par dos avanços da ciência e da tecnologia.

O Brasil, por exemplo, comemorou em Junho deste ano 50 anos de introdução da ciência e da tecnologia na agricultura. Cinquenta anos de trabalho duro, de visão estratégica, de formação de recursos humanos e hoje, o país comemora. O Brasil faz parte da lista dos países que alimentam o mundo, a aposta na agricultura familiar por parte do governo brasileiro e a existência da Bolsa de Mercadorias e Futuros do Brasil mudou o rumo da economia.

É esta a transição que o nosso país deve fazer, apostar na agricultura familiar, na formação dos pequenos produtores, devese potenciar estes indivíduos que realmente amam e vivem da terra, é necessário criar no angolano que vive no meio rural orgulho pelo campo, evitando assim o êxodo para os grandes centros urbanos. É ainda mais importante assegurar ao produtor a existência de um canal seguro como uma Bolsa de Mercadorias que o permita escoar os seus produtos.

Tanto a Bolsa de Mercadorias, como a produção agrícola, requerem investimentos em infraestruturas que permitam a movimentação dos produtos das zonas de produção, às áreas de comercialização ou consumo. A existência destas estruturas são fundamentais para garantir a motivação dos agricultores para produzir. Atendendo a estas necessidades e com a existência de uma Bolsa de Mercadorias, estarão criadas as bases para o desenvolvimento agricultura.

O canal de escoamento de produtos, criado por uma Bolsa de Mercadorias, fomentará a produção em grande escala e em maior variedade, possibilitando o aumento do comércio agrícola no espaço nacional. Conforme os benefícios da agricultura e da Bolsa de Mercadorias vão se tornando visíveis, se poderá observar um aumento no nível de investimento neste sector.

Para além do estímulo à agricultura, uma Bolsa de Mercadorias também garante a transparência no processo de formação dos preços. Por exemplo, sem uma plataforma de negociação os produtores não têm um mecanismo de disseminação de informação dos preços dos produtos, o que abre espaço para que os grandes comerciantes e industriais se beneficiem desde desequilíbrio. Uma Bolsa de Mercadorias garante que todos os participantes tenham acesso à mesma informação e a um único preço de referência, eliminando às assimetrias de informação e o aumento nas margens de comercialização (rendimentos) dos produtores.

Outro benefício da Bolsa de Mercadorias centra-se na melhoria da qualidade e na padronização dos produtos. As Bolsas de Mercadorias possuem sistemas de certifi cação da qualidade (certificados de depósitos) dos produtos aí transaccionados. É através destes mecanismos que as amostras dos produtos são avaliadas e com base no resultado, é determinado o preço. Produtos com melhor qualidade são negociados a preços mais elevados. Esta diferenciação nos preços motivará os agricultores a melhorarem a qualidade dos seus produtos e com o passar do tempo, a produção vai se tornando mais uniforme em termos de padrão de qualidade.

O sistema de certificação de depósitos, além de servir de mecanismo educador dos produtores no que respeita a qualidade dos produtos, também proporcionará a possibilidade de participação do sector bancário na agricultura. Nos certifi cados de depósitos, são defi nidos os preços e as quantidades dos produtos detidos por cada agricultor, este documento, com o devido respaldo legal pode ser usado como colateral na solicitação de fi nanciamento junto aos bancos, sendo que detém todas as características de um valor mobiliário.

Acima dos benefícios já mencionados, a existência de uma plataforma de negociação como a de uma Bolsa de Mercadorias, garante também aos seus participantes, gestão de tempo associada à oferta e procura de produtos agrícolas, redução do custo de transacção através da eliminação do número de intermediários, a possibilidade dos agricultores e comerciantes transaccionarem num espaço mais alargado do que a área geográfica onde se encontram, bem como, a troca atempada e viável de informação sobre preços e diversidade de produtos.

A implementação uma Bolsa de Mercadorias em Angola é possível, mas a sua operacionalidade dependerá em grande escala do nível de desenvolvimento do sector produtivo e da existência de infraestruturas logísticas que suportem o seu funcionamento.

Atendendo ao que acima foi descrito e também à actual conjuntura económica do país, não é um exagero dizer que chegou a hora da Bolsa de Mercadorias. Acertemos os relógios.

A hora da bolsa de mercadorias

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